24 de jan 2016

cabelo

Quando tem bebê novo na família os comentários logo surgem:

– Que azar hein, nem para puxar o cabelo do pai/mãe.

E começa aí, do berço, o esteriótipo do cabelo ruim. Se você é cacheada/crespa, provavelmente já passou por isso e talvez tenha até, por um período da vida, reproduzido esse preconceito contra o próprio cabelo.

– Dá um jeito nessas buchas, faz uma trança, penteia e prende, porque se soltar, ninguém segura.

Quando criança é fácil sonhar com o cabelo liso que não se possuí, afinal de contas todas as bonecas tem os cabelos lisos, as personagens das novelas adolescentes que acompanhamos, as vocalistas de bandas que gostamos, as modelos, crescemos aprendendo os padrões da perfeição, a única coisa que precisava ter feito, era ter nascido com o cabelo liso, é realmente muito azar.

Mas o que a sorte não resolve a gente dá um empurrãozinho, quanto mais cedo possível – se não sofre na escola, uma química aqui, uma esticadinha ali, estramos no salão insatisfeitas ou sem saber o que estamos fazendo e saímos lindas, prontas pra orgulhar a família, quem é que nunca ia ter cabelo liso? há, mostrei para vocês.

Agora temos franja e não temos mais trabalho com o cabelo, é só levantar e sair. Esperai, leva o guarda chuva que vai chover e cancela aquela praia, porque se não já era cabelo. Vamos esperar um pouquinho para lavar, porque não dá tempo fazer escova/chapinha de novo até amanhã, umas 10 reconstruções pra ver se o cabelo aguenta a próxima química e tem que retocar logo essa raiz, porque se não no trabalho/escola/faculdade vão descobrir que nosso cabelo não é liso.

Mas perai, olha o cabelo dela, na novela com cabelo ruim, mas, não está tão feio. Nela, né? Porque em nós, puff. Esse cabelo é nosso, pagamos para alisar e ele é bom agora. Ela tá rica, com a vida ganha, trouxa quem volta para essa vida. Caramba, aquela cantora voltou a usar o cabelo natural também, será que ficaria tipo assim? Vamos ver no google, como era nosso cabelo mesmo?

As fotos estão muito bem escondidas, mas existem, quem é essa? Somos nós, isso assusta, pois passou, somos quem somos agora. Mas e se? Vamos ver o que precisamos fazer, deve ser alguma química que precisa passar, não, droga, temos que esperar o cabelo crescer, demora pra caramba, deixa pra próxima década. Já era a piscina no domingo, porque tem que trabalhar na Segunda, e ‘- Ai’ como dói, queimadura de chapinha.

Vendo vídeos de pessoas que cortaram o cabelo curtinho para tirar a química, começa a nascer a coragem. Cansa jogar o jogo de estar no padrão e aos poucos a vontade de ser livre, voltar pro natural como aquelas pessoas, vem. Mas o boy viu e disse que ficou horrível, bora começar a transição escondido, ninguém vai notar.

O tempo passa, o cabelo nascendo fica visível e o apoio vem de grupos na internet, enquanto na vida real acham que foi um surto de maluquice, a família não entende e os homens preferem cabelo liso, não te contaram? Pois me contaram hoje mesmo, dois me chamaram no inbox para dizer, provavelmente acharam que eu precisava do aviso.

Esse cabelo ruim, de bucha, vassoura, palha, cabelo que não molha, cabelo duro, cabelo de nego. Cabelo-de-negro, acho que chegamos no ponto aqui, essas raízes que aparentemente temos que esconder, com alisamentos e chapas quentes para sermos considerados melhores aos olhos de quem julga os cabelos lisos, dos brancos,”os bons”. Pense bem, onde você viu que cabelo cacheado/crespo é ruim, onde estava escrito isso, essa lei que nos recrimina por ser quem somos. Ela não existe!

Nosso cabelo não é ruim, ele não falou mal de ninguém, não saiu de onde estava para te bater, não lhe pediu nem a opinião que você vem entregando de graça, deixando bem claro que ela de nada vale.

Ah, mas se o cabelo não é ruim, porque ele fica para cima e não para baixo, porque ele tem frizz, não molha quinem um cabelo liso? Porque ele NÃO É um cabelo liso. O cabelo cacheado/crespo tem as exatas características que ele deveria ter, variando de pessoa por pessoa, porque sim, e ele pode, se lhe permitirem.

O que você vai ensinar para seus filhos?

Esse texto foi escrito tendo como referência experiências pessoais minhas, de amigas e de grupos de cacheadas e crespas no facebook.

Tem o ponto de vista de pessoas que passaram por transição capilar e em sua essência nenhuma crítica a quem prefere manter seu cabelo quimicamente tratado.

 

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Comentários publicados somente após a aprovação.
  • Débora

    24 de jan de 2016

    Não é uma crítica quem mantém o cabelo quimicamente tratado, mas serve de reflexão para questionar a si mesma: Por que mantenho o meu cabelo liso? É incrível, quando pequenas não percebemos a pressão que existe sobre nós para alisarmos nossos cabelos, padronizar é tão doloroso, só machuca, fere e no final a sensação de satisfação dura apenas 3 semanas, pois na 4 é aquele desespero da raiz demostrando sua verdadeira aparência. Carlinha, você falou muito bem, ótimo texto, parabéns!

    Clichê de Escritora

    Responder

    Carla Nascimento responde:

    fevereiro 13th, 2016

    @Débora, muito obrigada Débora, só hoje percebi que escreci de responder os comentários desse post, hahaha. <3

  • Marina Menezes

    24 de jan de 2016

    Menina, fiquei muito surpresa quando você fez o BC. Pensava que já tinha passado pela transição há muito tempo. levei um susto quando vi seu cabelo curtinho no Instagram, pensei que a foto era de outra pessoa. Adorei, sério, espero que sirva de inspiração pra muita gente!

    Sobre o texto, me identifiquei muito com ele, apesar da minha situação ter sido diferente. Meu cabelo é cacheado, mas eu só usava preso. Nunca cheguei a fazer química (morria de medo), mas os motivos que me fizeram manter ele preso foram os mesmos, preconceito, achava que o cabelo era ruim, bagunçado e feio. Sendo sincera, mal sabia cuidar dele, fui aprender agora, com tantas e tantas pessoas falando sobre cachos e crespos. Graças a Deus né, ufa! <3<3

    Responder

    Carla Nascimento responde:

    fevereiro 13th, 2016

    @Marina Menezes, sim, antigamente eu não sabia o que estava fazendo, com a internet as informações chegam muito mais fácil na gente. <3

  • Jessica

    24 de jan de 2016

    Mesmo não sendo cacheada, sofri preconceito pelo meu cabelo ser ondulado. Sabe né? Onduladas e cacheadas são primas haha
    Meu cabelo tinha muito volume e aí eu sempre vivia cortando o mais curto possível até que ficasse na parte lisa. Na adolescencia eu via novelas onde realmente todas tinham cabelos lisos e eu queria ao máximo o meu cabelo liso também. Mas o tempo foi passando e eu dei chega a esses padrões do cabelo liso e estou feliz com minhas ondas. Sei como se sente porque eu tinha uma amiga na escola que NUNCA se aceitou cacheada, mesmo quando eu dizia que amava os cachos dela. Até hoje ela gasta rio de dinheiro com tratamento para mantê-lo liso =/

    Post muito bem escrito querida <3

    Responder

    Carla Nascimento responde:

    fevereiro 13th, 2016

    @Jessica, obrigada meu bem. <3

  • Stephanie Ferreira

    24 de jan de 2016

    Estou de pé aplaudindo este texto!
    E amando o quanto o cabelo natural sejam do jeito que for está sendo usado cada vez mais, que as mulheres estão se amando. As cacheadas/crespas maravilhosas finalmente servindo de inspirações.
    Espero que um dia, a cultura do cabelo liso = cabelo bom vá pro inferno (malz pela expressão). Olha que nem casei e já ouço: coitados dos seus filhos que vão ter o cabelo seu e do seu noivo junto hein?
    Mas os meus filhos vão se amar com o cabelo que tiverem e não vão crescer com este pensamento preconceito.
    Beijão

    Responder

    Carla Nascimento responde:

    fevereiro 13th, 2016

    @Stephanie Ferreira, não deixe seus filhinhos passarem pelo que passamos, defenda-os <3

  • Dani Nogueira

    24 de jan de 2016

    Que texto maravilhoso! Todo mundo deveria ler!!! Muito legal a forma como você abordou esse tema, e isso foi o que eu escutei a vida inteira também. Lembro que na escola eu talvez nunca cheguei a dizer, mas já pensei muito “esse cabelo ruim” de colegas de classe. Total ignorância da minha parte, crescendo também ouvindo esses tipos de coisas por todos os lados, reproduzindo preconceito mesmo que sem intenção ou até mesmo sem entender, achando que era certo pensar assim de alguém.
    Hoje sou muito grata por ter conseguido desconstruir e me tornar alguém mais inteligente, e é em textos como esse que eu aprendi como era ruim e errada a forma que eu pensava. E como! Só não sinto mais vergonha porque não era intencional, ah, essa sociedade, hein?
    Eu fico muito feliz por você se libertar do padrão que é imposto sobre ter que ter cabelo liso. Você está mais linda e incrível a cada foto/post/vídeo, por dentro, por fora, e eu não consigo parar de te elogiar pra você saber o quanto é especial. Lindas as coisas que têm trazido pra suas redes para ajudar outras pessoas. Que orgulho! <3

    Responder

  • Rayara

    24 de jan de 2016

    Que post maravilhoso! Me identifiquei muito nele… Sou bailarina de dança do ventre e não foi fácil abandonar o padrão estético da área (liso, longo e de preferência escuro). Mas venci o meu próprio preconceito e também o alheio, e hoje sou muito mais feliz com o meu cabelo! Recebo vários elogios e ganhei mais autoconfiança. Procuro incentivar várias meninas e deixar o cabelo cacheado também! Parabéns pelo seu BC!

    Responder

  • Marilia Sestari

    24 de jan de 2016

    Cada post um soco no estômago de geral e eu ficando mais e mais orgulgosa da sua coragem e vontade de mudar o mundo. Parabéns Carla, você é um exemplo de ser humano!

    Responder

  • Julieta Cacchione

    24 de jan de 2016

    Carla, simplesmente amei o texto e o seu blog! você fala das coisas com um jeito todo especial, sem brigar, sem ofender e faz com que todo mundo ( ou quase né, sempre tem os cabeça dura) entendam que essa coisa de padrão já era!!! Viva a diversidade e o amor próprio! Ganhou uma fã! Parabéns e continue escrevendo que vc vai longe! beijos mil

    Responder

 
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