27 de abr 2020

Há muito tempo não me deixo expressar sentimento por certas coisas. Coisas que aprecio e amo, que sinto mais do que todo o resto das coisas, mas não deixo sair. Não sei explicar de outra forma que não poesia, é abstrato, como se cada uma dessas coisas formasse a melodia de uma canção que não pode ser cantada. Um segredo, que todo mundo sabe, mas quase ninguém diz.
Alguns momentos, ações e lugares despertam essas coisas, como o vento batendo nas árvores, um elogio despropositado, a expressão em conjunto de um movimento que ninguém planejou, a música certa quecomeçar a tocar no momento certo, ou girar, descalça, num vestido bordado.
Não falo porque não tem volta, não pode ser retirado ou desmentido, eu vou saber. Uma vez contato, tudo pode danificar, distorcer, transformar em feio. Uma vez manchada uma tela em branco, ainda que pintemos por cima da cor original, ela não é a mesma.
Mas quem diabos quer uma sala cheia de objetos imaculados, sem uso ou propósito. Não eu, não mais. E se o destino for o ridículo, que seja.

 

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